segunda-feira, 3 de junho de 2013

PAUSA PARA RENASCER



I – A Secretária e a Pasta
Ela usava uma pasta como escudo. Ali, em pé, diante dele.
Fixando nos dela olhos que exprimiam um misto de assombro e compaixão, perguntou:
— O que você ainda está fazendo aí, parada?
— Vou a uma reunião...
— Larga tudo isso aí! — arrematou o médico. Vá se tratar!
Através de um exame, acabara de detectar um tumor imponente e manifesto na área do sigmóide.
Exímia e dedicada, a secretária titubeou levemente, agarrando-se à agenda de dentro da pasta, como se, através das ações ali marcadas, num passe de mágica, pudesse fazer desaparecer aquele instante feito uma cena de sonho ruim.
Costumava lidar assim com as coisas sob seu comando, priorizando o objetivo principal determinado pela maioria.
Outro assunto, porém, relegado à sua ordem ínfima, gritava seu grito ensurdecedor.

II – O Grito
Soava cada vez mais alto.
— Pare, pare tudo!
Parar.
Era este agora o objetivo.
Parar tudo o que estava fazendo até então: os andaimes fixados, os organogramas, os sistemas, os grupos, as pessoas que dependiam dela para prosseguir.
Abandonar tudo aquilo que acreditava ser impossível caminhar sem ela.
— O que você ainda está fazendo aí parada?
Era tempo de parar com o externo e cuidar do interno.

III – Redemoinho

Como se pára um?
Girando pela força externa, não podia encontrar os métodos, as técnicas de sobrevivência habituais.
Girava. Girava apenas, levada pelo vento.
Sob a tênue luz que ainda restava, podia ver seus próprios destroços alimentando a grande roda que a sugava, em vértigo.
Morrer deve ser assim.

IV – Intermissão

Acordou em uma cama de hospital.
Parada.
Assim precisava permanecer. 
Alguns tubos se encarregavam das funções básicas.
Na memória longínqua, flashes de caminhos mal traçados faziam doer, pensar em desistir de vez.
Quanto tempo mais?
E para quê?
Não tinha forças para procurar respostas.
Não encontrava motivo.


V – Fraldas e Mamadeiras
O bebê chora para expressar o que não sabe dizer. O que sente, mas não identifica.
Os adultos tentam descobrir, suprir conforme interpretam.
O bebê chora mais. Esperneia. Agita-se.
Era idêntica a sua situação pós-cirúrgica. Passados alguns dias, a família já podia levá-la para casa.
Chorava, irritada com os cuidados que evidenciavam sua incapacidade.  Esperneava, mostrando a indignação que se seguia às perguntas recorrentes: Por que eu? O que fiz para merecer isso?
Chorava mais.
Agitava-se, em vão. No tempo devido, tinha que sorver pelo canal do sangue o alimento e o antídoto.
Regurgitá-los.

VI – Primeiros Passos
Ter uma pele para sentir ajudava a experimentar o chão, onde os pedaços do mundo que conhecia se encontravam espalhados.
Os olhos focalizavam pessoas com ferimentos e deformações muito mais graves que os dela mas que, ainda assim, expressavam um ar manso, entre a resignação e a esperança. Em outras, via sua revolta interna espelhada.
Será que essa gente também fracassou em seu projeto de vida? Quais erros terão cometido? Pensava. Avaliava a si mesma.
Investigava as muitas teorias a respeito das causas dessa doença implacável: mágoa, tristeza, sentimentos de culpa.  
Ao escrever os pedidos de perdão que o nó na garganta não deixava verbalizar, começou a perdoar-se. Identificou a falha não percebida:  a arrogância de achar que não tinha limites, ou necessidades.
Muito do que fazia perdera o significado há muito tempo. 

VII – A Caminho da Luz
Pensava que já vivera tudo... No máximo mais 5 anos pela frente, calculava. E fim.
Já se vão 12, desde então! Nesse período, retornou, partiu, tornou a voltar.
Hoje, morrer e renascer são suas atividades prediletas. Aprendeu que pode fazer isso a qualquer momento.
Morrer para velhos conceitos. Nascer para o novo.
Desfazer-se das cascas, tornar-se luz.