sábado, 20 de novembro de 2010

sacaRose


Aos poucos, ela ia vencendo a dor. Paulatinamente, voltava a raciocinar...


Acompanhando o que considerava ser um de seus melhores momentos de lucidez sensorial, os ossos de sua face que, sem perceber, vinha massacrando ao longo de sua vida, gritaram seu apelo definitivo, fazendo-a desmoronar fisicamente.

Nas brumas da noite, tensão, ranger de dentes. 

Sim, muita coisa deve ser trancada dentro de nós, ensinaram as vivências anteriores.

Deve-se usar um véu para ir ao confessionário. Branco, para quem é virgem. Hipótese contrária, preto ou cinza. Ansiosa, repassava cada passo do ritual: o que ia falar, o que o sacerdote iria responder... - Você é uma menina virtuosa, disse ele, sentenciando-lhe a penitência pelos pecados confessados. 

Se não tiver confessado todas as suas faltas, o Corpo de Cristo sangrará em sua boca.

Também tem aquela máquina de apertar os dedos e outros inventos infalíveis para produzir sofrimento.

Cessadas as tentativas de extrair a confissão, ainda existem os instrumentos cortantes, capazes de retirar a pele, separar a carne dos ossos...

Qual era o segredo, afinal?

Ela nem se lembrava mais, tantos anos enterrada viva.

Ao receber o Chamado, reviveu a sensação de liberdade, como se voltasse de uma viagem ao centro da Terra.

O mestre havia dito que ela tinha um terceiro olho, onde se instalara uma energia prateada, que podia enxergar o invisível.

SacaRose, apelidara ele.

Talvez tivesse vislumbrado seu ser, previsto o desenrolar de toda história, usando seu dom inerente. Ou então, simplesmente, através de um processo natural, as sinonímias foram se agregando naturalmente.

Sacarose. Produto que tem uma origem natural, porém, existem adições químicas que o modificam. Fabricada para solucionar o amargor, equilibrar os desequilíbrios de doçura. Quase natural, quase perfeito. 

Ela sempre se esforçava para adoçar os outros. Tinha as receitas. Era quase natural, quase perfeita. Podia passar despercebida, sem incomodar ninguém. Sem decepcionar ninguém. Externamente, amor de conta-gotas; por dentro, o magma ancestral borbulhando, barrado pela arcada dentária.


O aparato deve estar ajustado, recebendo por igual o peso de sua estrutura. Carregada pelos amparadores, ela reencontrava a doçura do apoio.


Feixes de luz transpassavam seu corpo.





Ela, dependurada.



segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O Chamado


Quando o ví pela primeira vez, estava sentado no chão, como um índio, sem se destacar da roda.

Em palavras firmes, mas suaves, como se passassem pelo crivo da modéstia, não só aquela de quem procura velar suas qualidades, mas aquela de quem observa, acolhe, considera o interlocutor, ele discorria sobre as coisas do Céu e da Terra.

Como um prestidigitador, ia transformando tudo em multicores: o Sol - em dourado; a Lua - violeta; Mercúrio - amarelo; a Terra - marrom; Marte - em vermelho; Vênus - celeste; Júpiter - em verde; Saturno - rosa; Urano - branco; Netuno - prata; Plutão - preto... E o azul, é o planeta peregrino Elno, viajando pelo espaço infinito.

Fogo, terra, água, ar... Moviam-se ao seu comando, encantados por seus sons e cânticos, como nos chamados que relata a Bíblia, privilégio reservado somente aos santos.

Como Deus chegou assim, tão perto de mim?

Sua observação, de que eu tinha o raro dom de saber o que queria perguntar, ou perguntar o que queria saber, permaneceu como um troféu em meus sentidos, instigando-me a conquistar mais vitórias sobre minha própria ignorância.

As cores, ele as transformava em energias, pontos de luz, cada qual com seu movimento, interagindo e integrando-se no universo, seguindo uma ordem que meu cérebro não comportava, porém podia vislumbrar. Uma dança, uma sinfonia, um pulsar dinâmico, infinito, indefinível.

Cada átomo possui a história de suas viagens, ensinava ele, realizadas pela força da atração e da repulsão. Conectam-se, rearranjam-se em seus diferentes estados e condições, reafirmando sua presença através das sucessivas transformações, tornando única cada milionésima fração de tempo.

Cada mínimo instante de eternidade tem sua razão de ser!

Simplificando o relógio em escala de 0 a 9, como fazem os que vivem neste plano, é possível entender a importância de cada passo:
  • O grau 0 é um início de ciclo e o grau 9 o término - a energia tem o privilégio de não vir com pendências, ou obrigações. Como a planta, ou o animal.
  • Para o grau 1, o importante é a experiência, a independência de experimentar por si mesmo.
  • A energia de grau 2, já se comprometeu com algo e tem assuntos a resolver.
  • Em grau 3, tem missão a cumprir, precisa fazer algo com o que aprendeu até este estágio.
  • Em grau 4, deve concretizar uma ação.
  • Em grau 5, após a experiência da concretização, precisa aperfeiçoar a forma, buscar novas idéias.
  • Em grau 6, abre-se a possibilidade de iniciar-se em um novo caminho.
  • Em grau 7, dar seguimento ao novo aprendizado, graduar-se
  • Em grau 8, deve repassar seu conhecimento, sua bagagem, compartilhar com os demais.

Sintonizada nessa dimensão, juntar-me ao céu de estrelas tornou-se uma idéia fixa, a exigir o direcionamento de todas as minhas energias. Uma reação instintiva, já que meu olhar tinha apenas uma única direção.

Até então, não havia encontrado alguém que exprimisse de forma tão intensa e pura o amor, como o concebia: o reconhecimento do espírito, o enxergar ao olhar.

Inexoravelmente, segui o chamado, acreditando libertar-me.

Não pensava, apenas sentia.



sábado, 6 de novembro de 2010

A CIDADE IDEAL - A Montanha - o início

      
A Montanha do Gigante (iluminada, ao fundo)
              Amar-te

        É adormecer
        Com o canto dos pássaros

        É acariciar
        O vento

        É gozar
        Nas águas

        É abraçar
        O fogo
                                     Que era o amor?
                                     Dentre eles, até ali,
                                     Ninguém o conhecia.

  (Versos acima do livro inacabado: “Os pequenos ciganos da Montanha” – Juan)

 Foi um encontro de várias partes, como raramente ocorre.
    Unidos, sentíamos que era possível construir uma nova cidade, concretizar aquela que existia nos nossos sonhos.
   O que gerou essa força foi a similitude de idéias, de formas de buscar e exercitar o amor, de acordo com concepções pessoais que, a despeito de oposições ocultas, inconscientes ou não, permitiam conviver e criar um projeto comunitário.
  Revendo nossas ações, podemos perceber o quanto cada um de nós, intimamente, buscava decifrar uma incógnita comum: o AMOR.


   Acordamos cedo naquele dia, em que fomos conhecer a Montanha do Gigante. No alto da montanha, reencontramos o prazer de respirar e saudar o sol. Reencontramos o nosso lugar, situando-nos no centro dos pontos cardeais. De onde viemos, com nossa pouca visão, não importava onde estava o norte, o sul, o leste, o oeste...
    Mas, na Montanha, aprendemos que esse conhecimento é vital para executar a menor das tarefas, pois em cada canto predominam determinadas energias, que devem ser consideradas.
    Através de seu conhecimento da Cosmologia, o Gênio Criador sabia que a energia mais importante para o terráqueo, através da qual ele realiza seu aprendizado a caminho da espiritualidade, é o Verde, cor espiritual do elemento terra, que representa o alimento físico, mental e espiritual.
    Pela sua importância, os sábios mencionam sete casas do Verde, que devem ser trabalhadas durante a existência neste Planeta.
    O verde é a matriz do cérebro humano, a partir da qual se desenvolvem suas vivências, seus códigos de conduta.
    Começa pelo alimento físico, na mão que sustenta, limpa, alimenta, bate, sacode; amplia-se para o mental, através da mão amiga, da percepção do entorno onde se come, aprende e ensina; passa pelo espiritual através da devoção, do plantar para o eterno.
     Assim, a Cidade Ideal, situada na montanha de 45 alqueires, em São Thomé das Letras, foi criada com 7 Cozinhas, oferecendo a possibilidade de vivenciar plenamente essas realidades (em Minas Gerais, a cozinha é o ponto de encontro principal, muito mais do que a sala de estar):



COZINHA 1 – Realidade Social
Sendo a Realidade onde ocorre o primeiro contato do indivíduo com o meio, foi a primeira a ser criada. Nela, sempre deve haver lenha acesa e alimento para todos. 
  • Simbolismo: onde se nutre; magia obrigatória e mais elevada do terráqueo – preparar sua alimentação.
  • Elemento: FOGO
  • Direção: SUL
  • As energias que manejam o Fogo são o Branco e o Verde. 
COZINHA 2 – Realidade Profissional
Nesta Cozinha, realizam-se as aulas disciplinares, os trabalhos braçais.
  • Simbolismo: vida escolar, educação; trabalho; primeiras disciplinas; onde se assume um compromisso.
  • Elemento: TERRA
  • Direção: OESTE
  • As energias que manejam a Terra são o Prata  e o Vermelho.
COZINHA 3 – Realidade Vocacional* (leia observação abaixo)
Nesta Cozinha exercita-se o poder das palavras, dos pensamentos, cultiva-se e manipula-se plantas medicinais.
  • Simbolismo: tentativa de equilíbrio entre a educação de casa e da escola; a cura; onde a palavra ganha forma e entra pela primeira vez a magia e a estratégia.
COZINHA 4 – Realidade Emocional
Nesta Cozinha realizam-se festas e eventos para os montanheses e comunidades vizinhas.
  • Simbolismo: situações limite; morte; jogos; festas; epidemias; cerimônias.
  • Elemento:  ÁGUA
  • Direção: NORTE
  • As energias que manejam a Água são o Preto e o Rosa.
    COZINHA 5 – Realidade Íntima* (leia observação abaixo)
    Nesta Cozinha, foi instalada a Creche e estava planejado um centro médico que não se concretizou, devido ao alto custo.
    • Simbolismo: íntimo; convivência como parte natural do TODO; transmutação; alquimia.
    COZINHA 6 – Realidade Pessoal
    Nesta Cozinha, não se dá trabalho ao estômago; é o local do jejum, do preparo para se receber as mensagens dos sonhos.
    • Simbolismo: entrega; delírio; sonhos; mensagens; além da realidade.
    • Elemento: AR
    • Direção: LESTE
    • As energias que manejam o Ar são o Amarelo e o Celeste
    COZINHA 7 – Realidade Espiritual * (leia observação abaixo)
    Esta Cozinha já existia na Montanha – uma caverna de pedra, ao lado do muro construído pelos escravos que habitaram a região. Local para conversar com o Divino, independentemente de crença ou religião.
    Cozinha 7 - foto de Zé Bambu
    • Simbolismo: a verdade de cada um; o espírito; Deus.
    *Obs: As cozinhas 3, 5 e 7 não são manejadas por energias específicas, sendo abertas às experiências individuais.
         Ao optar por uma vida simples, subimos, um a um, cada qual carregando parte de seus pertences.
        Várias viagens seriam necessárias para levar o que atenderia às nossas necessidades.
        Enfrentando a longa estrada que levava ao lugar dos nossos sonhos, sentindo o peso de cada coisa, ficava mais fácil despojar-se do supérfluo.

                A entrada da Montanha... foto de 2012. A trilha se alargou com o tempo.

    quinta-feira, 4 de novembro de 2010

    Humanos iwireless/i vão virar antenas móveis de celular e internet

    Humanos iwireless/i vão virar antenas móveis de celular e internet: "Cada pessoa poderá se transformar em um repetidor de sinais, funcionando como um ponto de acesso móvel para a internet ou para a transmissão dos sinais de telefonia celular."