quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

UM DESPERTAR






Nas ações do cotidiano, revelações das contradições internas atingem mais profundamente algumas pessoas e menos a outras. Tudo no seu tempo.

Aquilo que se justifica ou não no mundo biológico urbano tem sido meu foco nos últimos dias. O que consideramos razoável, repugnante, ou nem mesmo pensamos a respeito.

Lembro-me do incômodo que vem lá de dentro sempre que vejo um programa sobre pesca naquele aparelho encontrado em toda parte, feito deus. Alegremente, o pescador exibe a sua presa, habilmente retira o gancho que fere o animal e o devolve à água. Pescaria por esporte, como chamam.

Uma frase do Mestre Juan define de forma exata os meus sentimentos: "- os índios pescam para sobreviver; o homem da cidade, por vaidade."

A mente parece ser comparsa do homem sob vários aspectos, encontrando razões, explicações ou simplesmente deletando partes indesejadas, permitindo conviver com sentimentos opostos sobre um mesmo assunto, como por exemplo, horrorizar-se com a matança, ter pena, mas comer a carne - cortar em   pedaços, assar, deleitar-se.

Sobre a pesca vaidosa, sequer é digna de nota! Passa ofuscada pelo brilho do "pescador". Afinal, são apenas peixes.

Outro ponto que me toca, os animais prisioneiros. Tenho me perguntado, por que tanta gente gosta de ter um ou mais animais presos em casa? Por amor, costumam dizer. Mas será amor manter um ser atrás de grades, cortar seus laços com a natureza e torna-lo dependente para comer, beber, sobreviver? 

O que se extravasa com esses atos? Será a necessidade de ter algo que dependa dos raros afagos, que dependa, enfim? Que nos pertençam? Compramos, vendemos, prendemos, subjugamos... Como ousamos achar que temos esse direito sobre outra criatura?

A respiração me falta neste momento. Benfazeja por instantes, a mente tenta preencher a lacuna que sinto no peito trazendo uma imagem gravada em meu coração: alguém abrindo todas as gaiolas que encontra e libertando os bichos. 

Faço um esforço e me contenho nos julgamentos. Substituo a indignação habitual por um sentimento ainda indefinido, um reflexo, talvez, da compaixão que tento exercitar. Concluo que essas atitudes egoístas fazem parte do árduo processo de autoconhecimento.

Meu olhar focaliza algo... mais adiante, visualizo uma silhueta. Chego mais perto... Reconheço um EU de outrora. Um EU que comprou, vendeu, prendeu, subjugou. Atrás das grades, cumpre sua pena perpétua.

Transformo a imagem em ato...

Quebro as travas do cadeado.

Liberto.