quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A MORTE DO XAMÃ


Impassível,
Pacientemente,
A aranha tece sua teia prateada.
A mosca, que penetra no mosaico, é o alimento...
A aranha se farta,
A mosca e a aranha cumprem os seus desígnios.

A outra mágica teia, que une
a aranha,
a teia, 
a mosca,
Une-nos a essa dança.
Apoiados na teia,
nos fartamos,
servimos de alimento
E assim cumprimos os nossos desígnios...

Ela não compreendia bem a importância dos ritos. Ninguém lhe explicara. Talvez porque tenha perguntado a quem tampouco sabia, ou não tinha tempo.

A cerimônia se alongava ao infinito. A imagem que gravou foi do monge indo e voltando a um ponto do altar, ora colocando, ora tirando seu chinelo de seda, sempre dispondo-o simétrica e cuidadosamente. Desde então, quase sempre, ao colocar e tirar seu próprio calçado, ela se lembra e, reverente, o imita.

Talvez para cada um, naquele templo, houvesse um significado diferente agregado à finalidade primordial, de marcar os 49 dias da morte de seu pai. A heterogeneidade interna desse grupo familiar contradiz, silenciosamente, as aparências.

Não era estranho para ela velar pensamentos, sentimentos. Assim deveria ser. Como um pacto, ou valendo-se dele para manter uma suposta harmonia. Já percebera a máscara a despeito da qual, em sua trajetória, vomitara rebeldia com violência.

Tenta desvencilhar-se. Da máscara e da rebeldia que passara a integra-la.