segunda-feira, 29 de outubro de 2012

CASTIGO E RECOMPENSA


Prometi ao meu sobrinho querido, aniversariante do mês, que compraria para ele um mini-ventilador, desses que vêm com balinhas dentro. Como hoje seria a festa, a cobrança seria certa. Lá fui eu, pleno domingo, tentar encontrar o regalo.

Na entrada do estacionamento do shopping, uma voz feminina gritou para mim: - E a seta?

Imediatamente, pensei: - Pobre moça, está no inferno, preocupando-se com uma besteira dessas... afinal, num estacionamento, todos devem pressupor que o carro da frente irá virar tão logo o motorista aviste a primeira vaga! Deve ser daquelas pessoas muito exigentes, que querem tudo à sua maneira.

Estacionei, entrei, passei no caixa eletrônico... ainda pensando nela. Percebi uma aceleração nos meus batimentos cardíacos.  A observação havia tocado alguns pontos íntimos e continuava me incomodando. Sim, era eu quem estava no inferno! Irritada com a moça, irritada comigo...

Estranhei as lojas todas fechadas... O segurança informou que hoje, dia do segundo turno das eleições, somente funcionariam na parte da tarde.  Desconcertada, saí rapidamente. Não me lembrava que teria que votar e tampouco encontrara o que estava buscando. Liguei o carro e atropelei a tartaruga, indo no sentido inverso.

Um castigo.

Respirei fundo... Como estou distraída, conclui por fim. Fora do tempo, andando como um autômato numa cidade vazia. Parei uns minutos, agradecendo mentalmente à moça que tentou me alertar de início. Agradeci também por ter espelhado um aspecto dos meus sentimentos, dos meus pensamentos.

Fazendo nova tentativa, entrei num supermercado. - Não temos mais esse brinquedo! - responderam à minha pergunta. Procurando por um substitutivo, vi, na prateleira, destacando-se por ser diverso dos outros produtos dispostos, um único exemplar de mini-ventilador, desses que vêm com balinhas dentro.

Sorri. Continuei sorrindo, sem acreditar no que havia acontecido. Um milagre, certamente.

Uma recompensa.