domingo, 25 de dezembro de 2011

O ELO PERDIDO



Passados muitos anos, ela acordou sem qualquer argumento que justificasse o que seu coração teimava em considerar o pior ato de sua vida.

Ao ver uma cena de um pai com um menino, retornou à época em que havia deixado sua principal tarefa a cargo de outra pessoa.

Dizia agora a si própria que aquele não havia sido um ato corajoso, grandioso, humanitário! Deixar o filho ir morar com o pai havia sido um ato extremamente egoísta, equivocado!

Como encontrar agora o elo perdido?

Depois de viver sua aventura no fundo do mar, ela retornou à terra, onde buscou, mas não encontrou mais seus familiares.

Trouxera consigo uma caixa, presente dos seres abissais, com a instrução de abrir somente em caso de profundo desespero.

Ao abri-la, uma grande fumaça transformou sua face, onde apareceram sulcados todos os caminhos traçados, todos os anos que haviam passado despercebidos.

Os cabelos, sempre negros, antes sinal de vitória contra as vicissitudes humanas, finalmente branquearam.



Ao longo do ano de 2006, quando produzi o texto acima, já se aproximava o final de minha missão em São Thomé das Letras-MG,  iniciada em 1989 com a fundação da Associação Comunitária Viva Criança, retirada do plano astral pelo Mestre Juan e que vinha de encontro aos mais elevados ideais de assistencialidade que me eram possíveis na época. 

São Thomé das Letras - MG
Produto da revisão que fazia de minha trajetória nesse período, identifica meus sentimentos com os do personagem de uma história japonesa antiga, Urashima Taro (no link, vídeo em japonês), cujo final sempre me intrigou. 

A moral da história, como interpretava, é que ele perdeu tempo precioso aventurando-se a viver uma vida diversa àquela socialmente aceita, que seria permanecer na terra natal, em dedicação total à família. Foi como me passaram. De onde eu traduzia: não ir para além mar, como fizeram meus ancestrais, não afastar-se, como eu, buscando estrelas.

Mas, revendo, consultando fontes, uma delas gentilmente traduzida pela Flavita do Livro em francês, descobri a mensagem que havia passado despercebida: 

"... se somente tivesse agido como lhe haviam aconselhado, poderia ter vivido mil anos... Não amarías ir ver o palácio do dragão, além do vazío, onde o deus do mar vive e governa como um rei os dragões, as tartarugas e os peixes? Onde as árvores têm esmeraldas por folhas e rubís por frutos, onde o rabo dos peixes são de prata e o rabo dos dragões são de ouro?"

O conselho foi para aguentar-se, enfrentar, não entrar em desespero pelo que perdeu, não abrir a caixa! 



clique na foto para ampliar
Abri a caixa do desespero, experimentando um tempo de trevas, acometida por profunda tristeza, acompanhada da sensação de ter perdido o caminho. 

Precisava buscar o elo perdido, retornar ao ponto de partida. Talvez ainda demore mil anos para ter uma nova oportunidade de rever o palácio do dragão.

"Do pó vieste e ao pó retornarás."    Gênesis, 3:19
Se do mar eu vim... retornarei a ele?