terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A CIDADE IDEAL - PORTAS


Entrada por Três Corações,  por Arsenio Hypollito Jun
A princípio, existem quatro entradas principais para São Thomé das Letras, ensinava nosso mestre. Ou melhor, três entradas e uma saída.

Uma pelo sul, através da cidade de Três Corações. Na época da minha primeira viagem à cidade mágica, o asfalto já chegava quase até a cidade. Este é o caminho mais utilizado para os assuntos envolvendo dinheiro e necessidades materiais. A porta Preta.

Pelo norte, Conceição do Rio Verde, a porta Branca, por onde entram os religiosos, os penitentes, que chegam à pé. Estrada estreita, acidentada, de terra e pedras, cercada de muito verde.



Montanhas avistadas do alto de São Thomé das Letras
Por Cruzília, a oeste, é a porta de saída. Quem sai por ali, dificilmente retorna. Quem entra por ali, está de passagem.

Desta vez, iríamos entrar pela Porta Amarela, a leste. A porta dos loucos, dos estudiosos, dos comunicadores, como convinha. De terra, paradisíaca, a estrada de Baependí, cidade de Nhá Chica, a santa que curava com suas sopas e chás.


No meio do caminho, parada no santuário dedicado a Nossa Senhora Aparecida, para doces e água. Momento de devoção.

Ao nos aproximarmos da cidade mística, avistamos os guardiões, mimetizados em imponentes rochas gigantescas. 

Sentí um aperto no peito e quase não suportei quando, em movimento vertiginoso, descortinou-se a pequena cidade diante de  mim.

Cidade vista da Porta Amarela por Erich Sattelmayer

Pôr de sol em São Thomé das Letras, 
por Erich Sattelmayer
O sol se punha à minha frente, entre luzes em profusão de cores... rosa, azul, dourado, ocre, violeta, celeste...


Era como voltar de uma viagem intergaláctica, aterrissando em uma pedra assustadora, de cujos contornos já não me recordava, ou não havia reparado a magnitude.


Chorei.


uma das ruas onde morei
Fiquei, por 17 anos.


Lembrava sempre a mim mesma, como se uma voz gritasse aos meus ouvidos: ouvir sempre os nativos. Aprender com eles, antes de tentar ensinar qualquer coisa.







Repasso aqui o que me foi ditado em 1989:



Há muitas maneiras de entrar em São Thomé...

O caminho dos montes nevados,
Assim parecem, ao longe, as montanhas de pedra.

O caminho dos guardiões,
Que protegem a cidade de pedra
E a descortinam,
Impiedosos,
A quem por eles consegue passar.

Como pesquisador de mistérios,
Seu trajeto já está marcado:
O restaurante do ufólogo,
A gruta do carimbado, que vai até Machu-Pichu

Como durista,
Curtir um barato,
Uivar na pirâmide,
Ver o pôr-do-sol
A música alta tapando-lhe os ouvidos

Como salvador-defensor,
Tentando ensinar tudo aquilo que os nativos sabem
Remédios de ervas, a nova mania urbana,
Que eles usam há séculos!
Criticará a água,
Garantindo que a água sanitária é melhor para a saúde;
As casas sem banheiros,
As lombrigas,
As doenças de pele,
Criticará a extração de pedras,
Moverá demagogo-burocratas
Para salvar a Ecologia
E eles deixarão que faça isso!

Talvez você se incomode com a forte energia 
que emana das crianças de São Thomé
E prefira olhar para suas roupas rasgadas,
Seus cabelos queimados pelo sol
E dizer que elas parecem envelhecidas
Ou, penalizado,
Deseje colocá-las no esquema da civilização falida!

Não!
Por favor, não!
Não lhes tire a vida!
Tente compreender a mensagem de força que lhes sai pelos olhos!

Ela,
Assim como o perfil do gigante,
Sábio,
Impassível,
Adormecido,
Passa despercebida...

Para ver,
Não basta olhar!
Se você conseguir,
Terá descoberto mais uma porta!