quarta-feira, 29 de agosto de 2012

JANELA SOBRE O CORPO



A Igreja diz: O corpo é uma culpa.
A ciência diz: O corpo é uma máquina.
A publicidade diz: O corpo é um negócio.
O corpo diz: Eu sou uma festa.
                                                       Eduardo Galeano

Abro-me a pensar no que tem viajado comigo pelas estrelas.

Apresenta-se, de pronto, o EGO. Tomando formas voláteis, começam a dançar em minha mente suas implicações em meu trajeto, contrapondo ou encontrando essas coisas de alma e espírito.

Repentinamente, no centro do palco, surge um corpo. Solitário, mudo, impõe sua presença por tempo de persistência infinita, propondo um monólogo. Ele, como protagonista.

Mas como? - interpõe o EGO. O corpo é apenas o peão do tablado, o dedo mindinho...

Diante do cenário que se abre em seguida, rompendo a pintura morta de céu, cala-se, estupefato. Miríades de luzes vivas, móveis, pulsantes, piscam, enquanto o CORPO desfila magistralmente todos os figurinos e scripts preparados por ele, o EGO.

A massificação inicial, a construção das armaduras... Para uns, o escudo é externo. Para outros, o escudo é o próprio corpo. A saúde, a doença, a maldade, a bondade, tudo está fora. Tudo está dentro.

Ambos, EGO e CORPO, se lembram da comemoração pela conquista com louros e do exato momento do toque sutil sobre a pele, por instantes desarmada.

Sentem ainda as reações difusas e intensas do novo ser que emerge, a partir de então, rumo a um novo objetivo: a busca da sensação provocada por aquele toque. Estruturas, idéias, conceitos, julgamentos antes criados ruindo, dissipando-se como ecos ao vento.

Anseios sutis esperados revelando-se desejos concretos. Desejos realizados isentos dos prazeres sutis buscados. As histórias ficam tatuadas como pinturas, cicatrizes, bálsamos. Mostram o que fizemos, o que deixamos de fazer. O que amamos, o que deixamos de amar.

Mesmo frio, acondicionado em uma caixa, o CORPO conserva, aplica sua capacidade de transformação, interna e externa. Os anjos podem ver e ouvir, ao seu redor, os murmúrios da alma molhando, rasgando, dissolvendo velhas imagens do ego.

Quantas lições proporcionam esta eterna morada efêmera, símbolo do tempo e das mutações!

Num lapso de tempo, a respiração pára. As luzes se apagam.

O EGO se inclina, em reverência.
A alma e os anjos acompanham.