segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O Chamado


Quando o ví pela primeira vez, estava sentado no chão, como um índio, sem se destacar da roda.

Em palavras firmes, mas suaves, como se passassem pelo crivo da modéstia, não só aquela de quem procura velar suas qualidades, mas aquela de quem observa, acolhe, considera o interlocutor, ele discorria sobre as coisas do Céu e da Terra.

Como um prestidigitador, ia transformando tudo em multicores: o Sol - em dourado; a Lua - violeta; Mercúrio - amarelo; a Terra - marrom; Marte - em vermelho; Vênus - celeste; Júpiter - em verde; Saturno - rosa; Urano - branco; Netuno - prata; Plutão - preto... E o azul, é o planeta peregrino Elno, viajando pelo espaço infinito.

Fogo, terra, água, ar... Moviam-se ao seu comando, encantados por seus sons e cânticos, como nos chamados que relata a Bíblia, privilégio reservado somente aos santos.

Como Deus chegou assim, tão perto de mim?

Sua observação, de que eu tinha o raro dom de saber o que queria perguntar, ou perguntar o que queria saber, permaneceu como um troféu em meus sentidos, instigando-me a conquistar mais vitórias sobre minha própria ignorância.

As cores, ele as transformava em energias, pontos de luz, cada qual com seu movimento, interagindo e integrando-se no universo, seguindo uma ordem que meu cérebro não comportava, porém podia vislumbrar. Uma dança, uma sinfonia, um pulsar dinâmico, infinito, indefinível.

Cada átomo possui a história de suas viagens, ensinava ele, realizadas pela força da atração e da repulsão. Conectam-se, rearranjam-se em seus diferentes estados e condições, reafirmando sua presença através das sucessivas transformações, tornando única cada milionésima fração de tempo.

Cada mínimo instante de eternidade tem sua razão de ser!

Simplificando o relógio em escala de 0 a 9, como fazem os que vivem neste plano, é possível entender a importância de cada passo:
  • O grau 0 é um início de ciclo e o grau 9 o término - a energia tem o privilégio de não vir com pendências, ou obrigações. Como a planta, ou o animal.
  • Para o grau 1, o importante é a experiência, a independência de experimentar por si mesmo.
  • A energia de grau 2, já se comprometeu com algo e tem assuntos a resolver.
  • Em grau 3, tem missão a cumprir, precisa fazer algo com o que aprendeu até este estágio.
  • Em grau 4, deve concretizar uma ação.
  • Em grau 5, após a experiência da concretização, precisa aperfeiçoar a forma, buscar novas idéias.
  • Em grau 6, abre-se a possibilidade de iniciar-se em um novo caminho.
  • Em grau 7, dar seguimento ao novo aprendizado, graduar-se
  • Em grau 8, deve repassar seu conhecimento, sua bagagem, compartilhar com os demais.

Sintonizada nessa dimensão, juntar-me ao céu de estrelas tornou-se uma idéia fixa, a exigir o direcionamento de todas as minhas energias. Uma reação instintiva, já que meu olhar tinha apenas uma única direção.

Até então, não havia encontrado alguém que exprimisse de forma tão intensa e pura o amor, como o concebia: o reconhecimento do espírito, o enxergar ao olhar.

Inexoravelmente, segui o chamado, acreditando libertar-me.

Não pensava, apenas sentia.