sexta-feira, 18 de julho de 2014

LUZ E BRUMAS

Frozen Fog - wikipedia

Muita gente diz que faria tudo igual se tivesse outra oportunidade. 
Com orgulho, querendo dizer que tudo valeu a pena.
Também acho que tudo valeu a pena. 
Mas muita coisa não faria igual, senão, de que teria valido tudo?


terça-feira, 1 de julho de 2014

TAROBA



Foto de Marques Leite

Ela acabara de chegar à Montanha e, quase sem fôlego, observava o imenso vale.

De repente, um garoto gritou, entusiasmado: — Um sanhaço!

Sem saber o que procurava, a novata traçou, com o corpo todo acompanhando os olhos, um círculo de 360 graus à sua volta...

— Um passarinho, logo ali! — insistiu o menino.

Ela nada viu. Intimamente, fez a si mesma a pergunta que a acompanhou por bastante tempo: como conseguiu distinguir algo tão pequeno nesta profusão impiedosa de imagens?!

Decerto, ajudavam-no os grandes olhos, que se destacavam de seu rosto negro sob o boné. Taroba, o chamavam. Por alguma razão, juntara-se às outras crianças que chegavam, uma a uma, por afinidade ou capricho do destino.

Outra qualidade, percebida ao longo da convivência: ele dispunha da visão periférica desenvolvida por esses nativos acostumados a contemplar a natureza exuberante do alto das pedras.

Talvez por isso tivesse que fazer um esforço extra para encontrar o mundo numa folha de papel, repleta de pequenas letras. Convence-lo a fazer essa viagem era desafio para mergulhar nos assuntos e buscar métodos inusitados de ensino.

Inúmeras vezes, ela sentiu aqueles olhos espreitando-a à distância e, auxiliada pela própria imaginação, o viu movendo a aba do boné, um tanto desconcertado. Como naquela vez, no retiro coordenado por Mestre Juan. A ordem era para que ninguém se dirigisse a ela, com palavras ou qualquer tipo de contato.

Ela vislumbrava algo de enigmático por trás do jeito amável e brejeiro de costume daquele garoto. Da mesma forma, ele parecia estranhar os modos diferentes daquela representante do "povo de fora".

Com o passar dos dias, compartilhando refeições, estudos, trabalhos, caminhadas, conversas ao redor do fogo, pouco se diferenciavam de uma verdadeira família. Ela, instrumento do Tudo para introduzi-lo no mundo progressivo. Ele, instrumento do Tudo para fazê-la retornar à essência.


Amadas crianças de pedra
Ensinem-me a ser pedra
Ajudem-me a transformar-me em pedra!
"Se eu pudesse escolher, 
seria uma estrela que pisca"
Apenas mais uma forma de dizer.


domingo, 29 de junho de 2014

TIRANOS E GUERREIROS


Passados muitos anos desde a grande revolução, ela retornava, anônima, ao seu lugar de origem. A justificativa, plausível ao seu coração, era necessária para acionar os passos no sentido contrário ao que tomara: não desejava mais um pai tirano! Aquele deus do Velho Testamento se mostrava fora do contexto de sua vida como a queria agora. Precisava de paz!

Também perdera sentido o título "guerreiro" ao qual o mestre tentava fazer com que todos almejassem. Não encontrava referências genuínas em sua realidade atual, de heróis produzidos, de soldadinhos de chumbo.

Em sua cegueira parcial, representara vários papéis, ora como o soldado a defender ideais, ora como a bailarina do sonho de amor. Às vezes sentava-se, pensativa, a buscar significados para tanta luta, ou para os exercícios de suportar a dor com graça e elegância.

Parecia que ela nada entendera, realmente! Ou talvez tivesse tomado um atalho errado!

...

Algumas vidas mais foram necessárias para esvaziar-se.
...

Acontece de repente. Uma frase, uma palavra e surge um clarão.

Os tiranos, pequenos ou grandes, são os portadores da luz para quem carrega a vaidade, o orgulho, a prepotência, a mania de julgar! É esta a grande guerra! O combate é contra o que não é a essência. O guerreiro da luz aproveita o encontro, a oportunidade, o desafio para eliminar esses fatores em si que o tornam vulnerável.

O tempo todo, estava à sua frente, pelo menos em título: "Os pequenos ciganos da Montanha". Apenas um jogo de palavras para descrever o que eram uns para os outros: pequenos tiranos.